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Rival de quem?

Civilidade é mais, minha gente.

09/05/2017 por

Costumo dizer que, para o que não presta, sou uma excelente aluna. Por exemplo: aprendi direitinho e de primeira tudo aquilo que o machismo da sociedade nos impunha, especialmente na minha adolescência, durante os anos noventa, quando não tínhamos o alcance ao “diferente” que a internet hoje nos proporciona.
Pois muito que bem, para mim mulher era amiga ou inimiga. Ás vezes os dois. Vai entender! O caso é que o mito da “rivalidade natural” me foi vendido lindamente embalado para presente, e como boa leonina, esteta e consumista, não só comprei como o devorei sem questionar. E o baile seguiu assim: somos rivais por natureza.
Em 2012 eu namorei um rapaz, e esse rapaz já havia namorado a Carol, é, a Carol aqui do Taco, antes de mim. Depois de mim, ele namorou outra garota, que hoje também é colaboradora por aqui.
Claro, nós não nos conhecíamos então, mas a rivalidade é natural, não é mesmo? Então como não ir reconhecer terreno? Farejar ex de atual e atual de ex? Quem nunca?
Quase quarenta anos e ainda não me decidi sobre coincidências. Existe ou não o acaso? Sigo sem saber. Só sei que ele ou um primo dele que existe fez com que estas três garotas viessem a se conhecer e a sensação, após muita risada, foi a de tirar uma mochila de meia tonelada das costas que a sociedade sempre nos fez acreditar que deveríamos carregar. A mochila da rivalidade.
Ouvi muitas coisas: “tá louca?”; “ai, é muita civilidade pro meu gosto!”. Civilidade é bom e a gente gosta. Desta “loucura” nasceram duas novas colaboradoras do Taco e uma camaradagem que hoje procuro entender porque não querem que nós mulheres tenhamos entre nós.
E fica a pergunta: somos rivais de quem? Além disso, a esperança: que o mito siga caindo por terra para mais e mais mulheres. Que o acolhimento seja cada vez maior entre nós. Que compremos menos ideias sem sentido só porque o mundo as fez parecer tão naturais.
Obrigada às ex do meu ex por me tornarem uma melhor atual de mim mesma. Vamos fazer o baile seguir diferente e levantar a bandeira: rivalidade entre mulheres não é natural. É apenas uma mochila pesada que puseram nas nossas costas.

Alice Perini

Professora de literatura, Alice é doutoranda em Letras, viciada em ballet clássico, piano e relaxar em frente à TV. Alice acredita que, ao contrário do que dizem, os melhores amigos de uma garota não são os diamantes, são os caminhões carregados de paçoca.

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