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pesado_2017

Pesado

É pesado viver sendo mulher: e por isso, aprendemos a criar verdadeiros rituais para que a paz interior seja mantida

20/04/2017 por

Hoje quando acordei decidi botar pra fora através desse texto uns engasgos. Acordo todos os dias às sete da manhã. Exceto nos dias que eu acordo ao meio dia. E tirando os dias que eu me atraso e acabo acordando às oito. (Na verdade eu nem sei se têm dias que eu realmente acordo às sete da manhã). Onde eu quero chegar com essa introdução? Não sei. E talvez seja exatamente aí que eu chegue; ao fato de que a gente não precisa ter noção sobre tudo o tempo todo. Acontece que viver pesa, sabe? É bom. Mas pesa. Principalmente pra nós mulheres.

Quinta feira passada foi um dia desses de se ter a certeza sobre como tudo pra gente é naturalmente mais dotado de uma carga que pesa toneladas; estava eu, sentada no sofá, lendo um artigo na internet que falava sobre carnaval, onde tinha um link pra uma aba que falava sobre o tanto de gente que adquiriu dst no carnaval carioca, onde dentro dessa aba tinha uma outra que falava sobre casais que se consultam juntos. Na verdade, não é necessariamente sobre “casais que se consultam juntos” e sim sobre “homens-que-só-aceitam-ir-consultar-pra-tratar-dst-quando-as-suas-parceiras-imploram-frenéticas-para-que-isso-ocorra”, e aí eu fiquei pensando: “Puts, que peso maldito é esse que cai sobre nossos ombros; ter que pedir quase de joelhos pros marmanjos irem se tratar porque assim fica mais fácil nós nos tratarmos também. Que coisa, que coisa”.

Chateada com essa reflexão que criei após ler a matéria, eu fui tomar um café na janela. Como eu tava em casa depois de um dia cheio de burocracia, eu fiz a coisa mais esperta que uma mulher pode fazer quando chega em casa; tirei o sutiã. E a blusa também. Fui pra janela. E o tesão acabou justamente quando me dei conta de que na frente mora um vizinho que sempre está espiando por lá. E aí claro; me tira total o direito de ficar à vontade, já que eu lembro da turma inteligentíssima(ironia) que diz o seguinte: alguns comportamentos das mulheres faz com que elas sejam estupradas. A lógica deles funciona mais ou menos assim: se uma aranha me picar na perna, a culpa é minha por ter perna. Lembrando que essa turminha se chama “um em cada três brasileiros”. E aí lá veio mais um peso. Porque pra mulher ficar em casa sem camisa com a janela aberta é PESADO. Peitos de mulheres e homens: uma parte do corpo que tem uma concentração maior de carne com um mamilo no centro. Por que sexualizar tanto isso? (na verdade; por que sexualizar apenas na mulher?) (não que eu quisesse que o dos homens também fossem sexualizados) (o caso é que eu queria que os peitos de ninguém fossem vistos com um pedaço de alguma coisa que faz o pinto subir) risos (Isso é tão bobo, tão estéril e tão humaninho que dá vontade de rir mesmo). Sou viciada em parênteses. Mas nem sempre. Mas agora foi.

Andar na rua com vestidinho curto então… pesa um milhão de toneladas. Mas eu entendo, ó senhores soberanos, que a culpa é toda minha. Na próxima vida eu venho com um pau pra não ofender mais a vida de vocês. Eu sou culpada por ter uma vagina. Perdão. Perdão. Eu devia saber que não se deve fazer essas duas coisas horríveis sendo mulher: andar na rua e existir. Mas eu prometo melhorar pra que vocês tratem de deixar minha vida mais leve. Só que enquanto vocês não deixam, o segredo é ir lutando e usando de artifícios.

O que eu tô tentando falar é que se no meio de um dia qualquer você quiser e puder (puder no nível de; caso você faça isso, não morra, já que fora a morte, o resto é tudo poeira cósmica) dar uma desligada de todas as coisas e parar de pensar por um tempo; o faça. Ninguém precisa estar antenado o tempo todo. A gente meio que tem um saldo de poder desligar, já que precisamos ficar ligadas até com o fato de podermos ou não vestir um vestidinho primaveril num dia qualquer, ou se algum dos seres extremamente inteligentes (ironia) vão dizer que estamos pedindo. Pois pronto, ser mulher já implica a nós o saldo do desligamento que precisa ser feito uma vez ou outra. A intenção nem é injetar em você, amiga, uma dose de autoajuda goela abaixo não, é só compartilhar um ritual que precisa ser feito para que a paz interior seja mantida. Eu faço. Recomendo. Façamos todas. E quem tiver conselhos de modos pra aliviar o peso da vida e quiser compartilhar, ó, eu tô louca pra saber.

Letícia Ferronato

Atriz. Estudante de história. Viciada em Clarice Lispector. Adora falar sobre política, teatro, sexo e sagrado feminino. Digital má influencer, queridinha da Hebe e nordestina. Sumarizando: única; igual todas as outras mulheres do mundo.

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