728 x 90

flor_do_agreste

Flores no agreste

Feminismo e Agroecologia no Sertão

06/04/2017 por

A coordenadora de extensão rural do Instituto Federal de Pernambuco, Vivian Delfino Motta, mostra que feminismo e agroecologia, juntos, transformam realidades.

Ela saiu da periferia com uma única certeza: a de que teria muito pouca chance de errar. Achava incrível a batata germinar na dispensa da sua casa e, ainda adolescente, decidiu pesquisar quais as profissões que trabalhavam com recursos naturais. Não tinha nenhuma proximidade com o meio rural, mas, aos 13 anos, decidiu que seria agrônoma. Enfrentou adversidades, rompeu barreiras, sentiu na pele o preconceito de uma área que não respeita o negro, e que ainda não está habituada com mulheres na liderança.

Na faculdade, aproximou-se do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), onde continuou trabalhando, depois de formada, para consolidar a agroecologia nos assentamentos dos Estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro: uma vivência que lhe permitiu acompanhar desde a organização da militância das agricultoras e agricultores até a comercialização dos produtos agroecológicos.

Quando achava que estava no auge da carreira, descobriu-se grávida. Sem apoio e sozinha, abandonou a estabilidade que tinha conquistado a duras penas para buscar o apoio da família.

Resistiu à dor da rejeição e, tal qual a catleya, uma das orquídeas mais resistentes da natureza, capaz de oferecer a beleza de suas flores mesmo depois de passar pelas mais diversas intempéries, ela recuperou as forças. Ainda estava em processo de cicatrização quando foi chamada para integrar a equipe do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), em Brasília. Aceitou o desafio mesmo isso significando deixar parte do coração em São Paulo: seu filho, ainda bebê, teria de ficar com a avó.

Exausta dos entreves políticos, da burocracia, e das viagens intermináveis que a deixava morrendo de saudades do seu pequeno e do restante da família, ainda que entusiasmada com a chance de ver de perto a consolidação da agricultura familiar no Brasil (que, hoje, foi escamoteada pelo atual governo), decidiu que era hora de abrir mão da carreira de executiva para integrar o quadro de professores do Instituto Federal, em São Roque.

Já estava acostumada com a rotina e achando que tinha conquistado uma certa tranquilidade quando foi desafiada pelo filho. Caio queria morar com a tia, em Pernambuco. “Lá tem praia, é mais quente. E tenho saudades da minha prima”, disse-lhe o menino, então com 7 anos. O coração de Vivian palpitou e cantou feliz quando a mãe disse que a seguiria desta vez, caso decidisse se mudar. Em menos de um ano, conseguiu a transferência. Começar de novo nunca foi o problema. “Ruim mesmo é ficar longe dos meus”, disse, com a lembrança dos dias angustiantes de ponte-aérea ainda vívidos na memória.

Um ano depois, a orquídea floriu. Vivian Delfino Motta voltou a unir a excelência profissional ao amor que sempre sentiu pela agroecologia e pelo ativismo. Hoje, é coordenadora de extensão rural do Instituto Federal de Pernambuco e professora de agroecologia. Teve seu trabalho reconhecido com o documentário “Flores de Ximenes”, disponível no Youtube, por retratar um grupo de mulheres agricultoras que está conseguindo mudar a realidade de um assentamento rural na Mata Sul pernambucana.

A iniciativa faz parte de um projeto de extensão sob sua coordenação, o “Feminismo e Agroecologia”, desenvolvido em 2016. Mais que reforma agrária, o “Flores de Ximenes” mostra o suporte técnico de um Instituto Federal pode fortalecer a parceira coma comunidade e promover avanços significativos na defesa da vida e na conquista da cidadania nestas localidades. Nesta entrevista para o Taco de Mulher, Vivian fala sobre tudo isso e um pouco mais. Leia, a seguir, os principais trechos:

Quais são os desafios que você enfrenta diariamente?
O dia a dia com as alunas e alunos é maravilhoso (apesar das dificuldades). Minha didática é sempre baseada no diálogo! Não faço slides, não tenho material preparado…Estudo o assunto, me atualizo e durante a aula, construo, junto com alunos e alunas, uma troca de experiências e geração de conhecimento. O grande entrave é que essa metodologia funciona muito bem com o ensino superior e/ou os adultos do PROEJA (Programa de Educação de Jovens e Adultos), mas com os adolescentes não vai… Ainda estou aprendendo a me conectar com essa turma. Aqui no Instituto Federal somos professores multiuso: trabalhamos em todos os níveis de formação, do Ensino Médio ao Mestrado, com perfis diversos (idosos, adolescentes, agricultores, quilombolas, indígenas, pós-graduados) e isso é um enorme desafio!

Na gestão escolar, o desafio é ter espaço para ser ouvida. Acho que a gestão do IFPE é inovadora, temos uma reitora que se preocupa com temas como gênero, inclusão, sustentabilidade, mas também temos um ambiente político inóspito, um espaço machista e misógino e uma enorme dificuldade de sair do perfil tecnicista da formação para o trabalho para uma visão holística de formação de um cidadão…É um desafio, mas também é um enriquecimento (apesar de dolorido).

Como se deu o seu envolvimento com o feminismo?
Desde 2005, quando comecei a trabalhar com o Movimento de Mulheres Camponesas me envolvi, me identifiquei e me comprometi com a demanda das mulheres, principalmente as não urbanas, entre elas as rurais, as pertencentes aos povos da floresta, ribeirinhas, pescadoras, quilombolas, indígenas, que até podem viver em um ambiente urbano mas não têm em sua essência a prática cotidiana da vivência citadina. Apesar disso, eu ainda tinha medo de dizer que era feminista! Tinha receio do estereótipo e de ter que defender esse posicionamento. Para sustentar essa afirmação fui estudar, me unir aos movimentos feminista e me empoderar.

Como as mulheres do assentamento estavam antes de serem envolvidas no projeto e em que momento o projeto Flores de Ximenes está agora?
Antes do projeto elas não se conheciam. Tinham as mesmas preocupações, gostavam das mesmas coisas, se viam nas estradas que as levavam à cidade, mas a intimidade http://www.tacodemulher.com.br/?p=2726&preview=trueera nula. Já havia um desejo de mudança da realidade! Era nítido que elas já tinham uma inquietação, mas faltava ânimo e mobilização para que houvesse a formação do coletivo.


De que maneira o protagonismo feminino pode transformar realidades em comunidades como a retratada no documentário Flores de Ximenes?

A maneira como aprendemos a perceber a existência está sob o ponto de vista dos homens. O feminismo, por sua vez, permite que as mulheres pensem sobre sua existência (ou inexistência). A partir dele, a gente se identifica. Por ele, nos empoderamos para falar sobre o que nos violenta, anula ou amarra e permite que mudemos nossa essa existência em busca do bem viver. É isso que nós estamos fazendo juntas no assentamento Ximenes. Mas é pouco. O feminismo está em dívida com as mulheres rurais, não vejo muitos trabalhos que façam um recorte de feminismo para a realidade dessas mulheres. Acho que esse feminismo branco, cunhado na realidade das mulheres europeias não atende à demanda das camponesas, não discute as especificidades delas… Então, ainda temos muito o que caminhar…Mas não estamos paradas.

Quais as expectativas para o projeto nos próximos anos? vivian_delfino_motta
A perspectiva é que não haja “próximos anos”. A ideia é fortalecer esse coletivo, consolidando essa união e que depois as flores e o assentamento Ximenes andem com suas próprias pernas. Eu não sou uma flor de Ximenes, não sou agricultora, minha interferência é emancipatória. Elas são totalmente capazes de modificar a sua realidade e interferir nos pontos que devem ser mudados. O que estamos fazendo é aproximar o grupo Flores de Ximenes com os movimentos de representação, com a rede que pode apoia-las nas ações. Mas acredito que se tudo der certo, em 2018 iremos iniciar o trabalho em outra comunidade.

Juliana Tavares

Demorou para admitir, mas hoje acha que ser mulher é muito divertido. É jornalista, consultora em Comunicação pela j2 Comunicação e mãe de Matheus, Heitor, dois gatos e uma cã.

Site

Comenta aí, vai!

  • Vívian Motta

    Participar de um processo de reflexão é um presente! Espero que a gente possa abrir mentes, ampliar o respeito, viver em harmonia, mas sem nunca deixar de lutar pelos nossos direitos. Gratidão eterna a Juliana e ao Taco de Mulher pela oportunidade.

    • Carol Marçal

      Querida Vivian, que sua história continue inspirando pessoas! O mundo precisa de pessoas com a sua determinação e conhecimento! :)