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A mulher que toda mãe costumava ser

O caminho inevitável da transformação

28/07/2017 por

Tudo começou com uma limpeza no guarda-roupas. Separei as blusas antiguinhas para doar, joguei fora as meias esburacadas e as calças que ainda teimavam em não servir, eu coloquei em uma outra sacola.
Lá se foi metade do meu armário.
Aos poucos, fui descartando eu mesma junto com as peças de roupa que não cabiam mais na minha nova vida.
Algumas semanas depois, viajei sozinha, sem a cria, com o intuito de descansar. “Ela já está grandinha” eu pensei, “pode ficar com a avó e o marido por três dias”. Quando cheguei na praia, me arrependi. Me senti egoísta por não ter levado a pequena a tiracolo. Fiquei confusa. Não era para descansar? Não deveria ser o máximo uma pequena liberdade em meio ao caos de todo dia? A verdade é que imaginei ela em cada cantinho da casa, da praia, da trilha. Me peguei colocando uma cadeira na frente da tomada para se caso ela passasse por ali não tomasse um choque. Olhei uma escada íngreme e pensei que teria que ficar subindo e descendo a escada com ela o dia todo e que realmente não teria sossego. No banho, senti a água escorrendo pelas minhas costas e pensei que talvez a ducha seria muito forte para a pele sensível de um bebê de 1 ano e que provavelmente ela choraria. A ideia era relaxar, mas a verdade era que já não me sentia completa somente na minha companhia.
Mais alguns dias se passaram e minha turma de amigas da faculdade se reuniu. Todas enfeitadas, bonitas e, o mais importante de tudo, descansadas. Me chamavam para dançar e para beber até de madrugada. Eu queria, mas essa ideia já não cabia mais. Que sensação estranha. Elas me olhavam e viam a mesma amiga de sempre, não percebiam que eu já não estava mais ali.
A memória da minha antiga identidade ainda está muito presente, me confundindo sempre que pode, desenhando seus formatos fora de escala, dando proporções gigantescas a antigos momentos de prazer que, na realidade, não trazem mais felicidade. Às vezes tenho saudades da mulher que eu costumava ser, às vezes gosto mais da nova. Vou dar as mãos pra ela e vamos caminhar juntas por ai, quem sabe um dia até viramos amigas.

Marina Zinn

Não se sente à vontade com rótulos. Está em eterna busca existencialista, é mãe da Débora, casada com um baita homem e entusiasta das práticas montessorianas. Publicitária de formação, empreendedora e atualmente vendedora de bolos. Gostaria de sair de SP e morar no interior.

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